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Publicado em 28/06/2016

A nossa Orlando de cada dia

O edifício de Stonewall, em Nova Iorque, foi construído em 1840 como estábulo, em 1934 foi um restaurante e em 1967 reabriu como clube gay. O espaço é símbolo do momento em que a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da cidade, cansada de tanta violência e exclusão, decidiu deixar de viver dentro do armário. Em 28 de junho de 1969, a comunidade enfrentou, pela primeira vez, os policiais que tentavam fechar o bar e prender o grupo. Logo após a resistência, que durou seis dias, os LGBTs começaram a se reunir e várias organizações de defesa dos direitos dos homossexuais e transexuais começaram a surgir. Por isso, a data virou símbolo do orgulho LGBT.

O atual momento nos faz relembrar e refletir sobre o que aconteceu em Stonewall. Todos os dias, tomamos conhecimento de novos casos envolvendo violência e morte de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, sendo essas duas últimas populações ainda mais vulneráveis. São episódios motivados por homolesbotransfobia e que, em comum, têm a presença do ódio e a vontade de exterminar essas pessoas do mundo. Além disso, demonstram que os LGBTs ainda são perseguidos e massacrados de diferentes formas, por diversos setores da sociedade.

O massacre brutal ocorrido na Boate Pulse, em Orlando, recentemente, chamou a atenção do mundo para toda essa intolerância. Mas, infelizmente, não foi um caso isolado. No Rio de Janeiro, só na última semana, foram notificados seis assassinatos contra essa população, todos com indício de crime de ódio. Todos os dias, o Rio Sem Homofobia recebe novas denúncias de agressão. Milhares de homossexuais, travestis e transexuais são mortos nas cidades brasileiras e nem sempre esses casos são denunciados e têm a atenção da mídia e da opinião pública.

Esses crimes, sejam em Orlando, em Friburgo, Petrópolis, Mesquita, Duque de Caxias ou Paracambi, são reflexos da onda conservadora e do fanatismo religioso que algumas pessoas insistem em fazer avançar na nossa sociedade e que não aceita os avanços já conquistados pela população LGBT no campo dos direitos, propagando uma mensagem de intolerância e ódio. Assim, fazem parecer normal e aceitável a discriminação e a violência contra LGBTs. Isso, junto com a falta de uma legislação específica que criminalize a lesbofobia, a homofobia, a bifobia, e a transfobia no Brasil, aumentam ainda mais a vulnerabilidade social de lésbicas gays, bissexuais, travestis e homens e mulheres transexuais e abre um enorme precedente para que episódios como esses se tornem corriqueiros.

Mas não é hora de nos deixarmos abater. O Rio Sem Homofobia está atento e acompanhando de perto as investigações desses casos, para que sejam elucidados e não caiam no ciclo de impunidade. Vamos trabalhar fortemente, junto com os órgãos competentes, para que os criminosos paguem pelo que fizeram. E em memória de todos aqueles e aquelas que, por conta da homolesbotransfobia, perderam suas vidas, seguiremos enfrentando todas as dificuldades e avançando em direção a uma sociedade mais tolerante e respeitosa com essa população. Além disso, após um período suspenso, todos os nossos Centros de Cidadania LGBT e o Disque Cidadania LGBT 0800 0234567 foram reabertos em maio e estão à disposição das lésbicas, gays, bissexuais, travestis e homens e mulheres transexuais, seus amigos e familiares em situação de vulnerabilidade e de violência ou em busca de direitos.

 

Cláudio Nascimento

Coordenador do Programa Rio Sem Homofobia

Superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da SEASDH-RJ

Cidadão Honorário da Cidade do Rio de Janeiro